“Como ultrapassei um distúrbio alimentar”

Desde que me lembro, sempre gostei de comer e muitas das minhas recordações de infância prendem-se com memórias alimentares associadas a pessoas e a lugares que me eram queridos. Acho que nunca cheguei a ser uma criança obesa, mas fui sempre baixinha e gordinha e, por isso, alvo de alguns comentários tanto por parte das crianças que me rodeavam como de alguns adultos. Lembro-me em especial das aulas de ballet, da primeira à quarta classe, e da professora da “velha guarda” que insistia em “esconder-me” na última fila nos espetáculos de final de ano. Sobre um eventual futuro no conservatório, a mesma professora disse: “Com este tipo de corpo, nem vale a pena tentar”.

Já na transição da idade, fui das primeiras a ganhar formas mais femininas. Avancei para a adolescência escondendo-me atrás de roupas largas para esconder as formas. Cheguei aos 19 anos com 1,50 m de altura e 57 quilos de peso. Estava no segundo ano da faculdade e a experiência universitária estava a ser uma desilusão. Achava-me obesa e queria fazer dieta, queria muito emagrecer para ser feliz, para ter namorado e usar as roupas que as minhas amigas usavam. A minha mãe concordou e assim fiz a minha primeira dieta, acompanhada por um médico. Já não me lembro no que consistia a dieta, se era muito restritiva ou não, mas lembro-me que levei a missão de emagrecer tão a sério que de repente, e sem perceber muito bem como, estava a entrar num quadro de anorexia.

Na faculdade almoçava uma sopa e um iogurte e já não comia mais nada o resto do dia. Em casa também deixei de comer.

Cheguei a um peso mínimo de 43 quilos, tinha um ar doente, os braços cobriram-se por completo de penugem (lanugo) e durante dois anos não tive menstruação (amenorreia).

Algo se passava. A família alarmou-se. Por total desconhecimento sobre distúrbios alimentares (na altura o assunto ainda não era falado e não existia o Google para pesquisar), a minha mãe não conseguiu compreender e aceitar o que se estava a passar, mas sempre me deu apoio naquilo que podia. Sempre tive uma consciência extraordinária do que me estava a acontecer e fui eu própria a procurar ajuda especializada no Núcleo de Doenças do Comportamento Alimentar do Hospital de Santa Maria, onde fui seguida por um psiquiatra, uma dietista e uma endocrinologista. Não foi um processo fácil, as horas de espera no hospital eram longas e muitas vezes saía das consultas ainda mais deprimida. Lá conheci muitos jovens na mesma situação que eu e a doença foi-se desmistificando.

Entretanto, algures durante todo este processo, o que até ali era uma anorexia e uma recusa em alimentar-me evoluiu para o extremo oposto da bulimia. Ou melhor, ataques de voracidade alimentar (‘bindging’) porque nunca fui capaz de vomitar ou levar a cabo outras formas de purgação. Durante meses, a rotina repetia-se: chegava da faculdade e antes de os meus pais chegarem a casa devorava uma quantidade enorme de comida, ao longo de uma ou duas horas, escondia o lixo e fechava-me no quarto, recusava jantar, mentia. No dia seguinte ficava em jejum até à hora de chegar a casa e começar tudo outra vez. Até hoje, tenho mais memórias negativas desta fase, como tendo sido mais muito penosa do que a anterior.

Tal como os distúrbios alimentares se apoderaram de mim sem me aperceber, o tempo também acabou por “curar” a doença. Eu costumo dizer que o amor me salvou: no meio de tudo isto comecei a namorar com aquele que viria a ser meu marido e que sempre demonstrou uma compreensão incrível e prometeu amar-me, independentemente do meu peso. E assim foi, dos 43 quilos com que me conheceu até aos 73 quilos que já cheguei a pesar.

Hoje sinto-me “curada” dos distúrbios alimentares, é certo, mas se me perguntarem se tenho uma relação 100% saudável com a comida a resposta é não.

A década dos 20 aos 30 anos foi passada em dietas iô-iô (10 quilos para cima, 10 quilos para baixo), e assim continuou com as duas gravidezes, aos 30 e aos 33 anos. Hoje tenho 36 anos e ainda continuo a sonhar ser magra como as outras mulheres. Acho que tenho uma alimentação “normal” mas em momentos de stress e ansiedade, a comida ainda surge como “escape”. Eu costumo dizer que a comida é a minha nicotina, os meus cigarros. Penso muitas vezes que se pudesse voltar atrás e mudar alguma coisa, nunca teria feito aquela primeira dieta.  Em alternativa tinha tentado aceitar mais o meu corpo, fazer uma alimentação saudável com o apoio de especialistas, nomeadamente um médico e nutricionista, fazer mais desporto e atividade física. Este é o conselho que deixo para todas as jovens que têm dificuldade em lidar com a sua imagem corporal.

 

Testemunho:
Isabel Matias, 36 anos, Lisboa

Conteúdo revisto pelo Conselho Científico da AdvanceCare.
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