Diabetes pode afetar fertilidade masculina

Diabetes pode afetar fertilidade masculina

Maternidade
Última atualização: 11/12/2022
Diabetes pode afetar a fertilidade masculina

A diabetes tem influência em toda a nossa vida, podendo estar associada ao desenvolvimento de outras patologias, como é o caso da infertilidade masculina. Falámos com Sandra Amaral, investigadora do Centro de Neurociências e Biologia Celular de Coimbra, que já liderou um estudo sobre este tema.

Nas últimas três décadas, a prevalência de diabetes tipo 2 aumentou dramaticamente em todos os países. Atualmente, segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca 422 milhões de pessoas em todo o mundo têm diabetes, a maioria nos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento. Além disso, 1,5 milhões de mortes são atribuídas diretamente à diabetes a cada ano.

Prevalência da diabetes em Portugal

Portugal não é exceção e é inclusivamente, um dos países europeus com maior incidência de diabetes. De acordo com os dados da edição 2020 do relatório “Visão geral da saúde: Europa”, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), em 2019, Portugal tinha 9,8% dos adultos (entre os 20 e os 79 anos) com diabetes dos tipos 1 e 2, surgindo apenas atrás da Alemanha (10,4%), o pior país da União Europeia nas estatísticas. A média da UE a 27 foi 6,2%, com Irlanda (3,2%), Lituânia (3,8%) e Estónia (4,2%) a registarem as taxas mais baixas de prevalência de diabetes entre adultos.

Já segundo o mais recente relatório de 2019 do Observatório Nacional da Diabetes, em 2018, a prevalência estimada da diabetes na população portuguesa, com idades compreendidas entre os 20 e os 79 anos (7,7 milhões de indivíduos) foi de 13,6%. Isto é, mais de 1 milhão de portugueses neste grupo etário tem diabetes.

Adicionalmente, o impacto do envelhecimento na estrutura etária da população portuguesa refletiu-se num aumento de 1,9 pontos percentuais da taxa de prevalência da diabetes entre 2009 e 2018, o que corresponde a um crescimento na ordem dos 16,3% nos últimos 10 anos.

Em termos de composição da taxa de prevalência da diabetes, em 56% dos indivíduos esta já havia sido diagnosticada e em 44% ainda não tinha sido diagnosticada.

“Estes são valores extremamente preocupantes numa população com a dimensão da nossa”, comenta Sandra Amaral, bióloga e cientista

do Centro de Neurociências e Biologia Celular de Coimbra (CNBC), que investigou os efeitos da diabetes na fertilidade masculina.

Diabetes e (in)fertilidade

Como se sabe, a diabetes está associada ao aparecimento de várias patologias e complicações (doenças cardiovascularesretinopatia, nefropatia e neuropatia diabéticas, entre outras), afetando vários sistemas do organismo. O sistema reprodutor não é exceção. Além de fatores como anomalias congénitas ou adquiridas, influência dos hábitos de vida, entre outros, sabe-se que doenças sistémicas como a diabetes podem contribuir para a infertilidade. “Na verdade, o crescimento galopante da doença está a refletir-se na maior prevalência da doença em jovens em idade reprodutiva, podendo comprometer a sua fertilidade”, destaca a investigadora, salientando que a diabetes pode afetar a função reprodutora de mulheres e também de homens.

Impacto na fertilidade masculina

Como explica Sandra Amaral, “a diabetes afeta a função sexual de indivíduos diabéticos e é resultado de uma desordem física progressiva, conjuntamente com fatores psicológicos. Os pacientes diabéticos, além da diminuição da libido e disfunção orgásmica, têm uma maior probabilidade de disfunção erétil.” Outra sequela masculina, menos frequente, é a ejaculação retrógrada, na qual o esperma é conduzido para a bexiga em vez de sair pela uretra. Por isso é mais frequente que nos casais que tentem engravidar, e nos quais o homem sofre de diabetes, existir um menor número de gravidezes, maior número de abortos espontâneos e recurso mais frequente a técnicas de reprodução medicamente assistida.

Repercussões da diabetes na fertilidade masculina

Uma das razões para as repercussões da diabetes na fertilidade masculina prende-se com a qualidade do esperma, que pode ser menor em homens diabéticos. Por outro lado, mudanças a nível hormonal como a diminuição da testosterona, e a própria insulina, cuja ação se encontra alterada na doença, “poderá afetar a regulação hormonal masculina”, refere a cientista. Os mecanismos deste fenómeno não estão ainda esclarecidos e têm sido alvo de interesse por investigadores de todo o mundo, como é o caso da equipa de investigadores do  Centro de Neurociências e Biologia Celular de Coimbra, liderada por Sandra Amaral, que realizou um estudo sobre a função reprodutora masculina e a sua relação com a fertilidade. “O trabalho concluiu que a hiperglicemia por si só não parece afetar diretamente os espermatozoides maduros, mas sim a sua formação (espermatogénese). No entanto, não excluímos a possibilidade de outros fatores envolvidos na doença – stress oxidativo, processos inflamatórios e alterações vasculares/endoteliais – que, com a hiperglicemia, possam ter efeitos nefastos diretos nos espermatozoides e que pretendemos explorar no futuro”, sublinha a coordenadora do projeto.

Sensibilizar os doentes com diabetes

Alertar para o impacto da diabetes na fertilidade é um dos objetivos é, pois fundamental, considera Sandra Amaral, reforçando que “sendo uma doença silenciosa - quando os primeiros sinais aparecem são já de alguma gravidade - acaba por ser comum que a saúde reprodutiva seja descurada entre tantas complicações mais ‘visíveis’”. “Acreditamos que uma maior sensibilização dos pacientes diabéticos relativamente a esta temática nos permitirá avançar para estudos em humanos no futuro e perceber melhor o que motiva as alterações reprodutivas em diabéticos”, sublinha a cientista.

Prevenção é essencial

Enquanto a ciência procura respostas, é possível minimizar o risco de disfunção reprodutora associada à diabetes. Segundo Sandra Amaral, “os efeitos estarão também dependentes da duração da doença, do controlo glicémico, da existência de outras complicações associadas à doença e do tipo de tratamento usado”. “Enquanto não sabemos mais e não existem medicamentos específicos, a prevenção é essencial não só para evitar o aparecimento de complicações mas também o seu agravamento”, conclui, acrescentando que “adotar um estilo de vida saudável, que inclui uma alimentação regrada (evitando o consumo excessivo de açúcares e gorduras) e a prática de exercício físico é essencial”. “Além disso, devemos encarar a saúde reprodutiva como a de qualquer outro sistema do nosso organismo e ser vigilantes”, recomenda.

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