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AdvanceCare | Perturbações do sono nas crianças: o que fazer?

Perturbações do sono nas crianças: o que fazer?

Muitas crianças têm dificuldade em adormecer e, durante a noite, acordam várias vezes assustadas…e assustam os pais! Mas os estudos demonstram que as perturbações do sono nas crianças são muito mais comuns do que se imagina.

O nosso sono

As perturbações do sono afetam cerca de 25% das crianças. No entanto, mesmo nestes casos e, a seu tempo, o sono acaba por sair vencedor. Até lá, importa conhecer as normais perturbações do sono durante a infância e, antes disso, percebermos como decorre o processo normal de sono. O estado de sono é um processo neurofisiológico complexo e altamente organizado. Sabemos que o sono está dividido em dois estados diferentes: o sono com movimentos rápidos oculares ou sono REM (Rapid Eye Movement) e o sono sem movimentos rápidos oculares ou não REM (No Rapid Eye Movement – NREM).

O ciclo de sono normal é atingido por volta dos 8 anos. No que diz respeito a quando e quanto devem as crianças dormir, importa salientar que, nas últimas décadas os cientistas provaram que a temperatura do corpo, a digestão, a secreção de hormonas e outros processos biológicos, incluindo o sono, variam de acordo com o ritmo de um relógio interior. Um destes ritmos biológicos mais poderosos é precisamente o ciclo do sono – vigília.

Perturbações mais comuns:

Existem perturbações que ocorrem durante o sono, ou na fase de transição para a vigília, que incluem, entre outras, os terrores noturnos, os pesadelos, o sonambulismo e os movimentos rítmicos. Estas perturbações são comuns entre as crianças e, embora atraiam muita atenção, ocorrem de forma irregular, não possuem etiologia definida, não estão associadas a um tipo de psicopatologia e normalmente desaparecem com a maturação. Neste tipo de perturbações, é importante salientar a distinção clara que existe entre terrores noturnos e pesadelos.

Terrores noturnos

Caraterizam-se por um choro brusco e inesperado da criança, acompanhado de uma expressão de medo intenso, suores frios, muita agitação e incapacidade de ser consolada. Uma vez acordada, a criança apresenta um estado de confusão e desorientação. Surgem normalmente aos 2 - 3 anos, e acontecem durante a primeira metade da noite. Associam-se à transição parcial abrupta do nível 4 do sono No Rapid Eye Movement (NREM) para o sono Rapid Eye Movement(REM), relacionam-se com a maturação do Sistema Nervoso Central (SNC) e não deixam recordação no dia seguinte. Normalmente desaparecem com o desenvolvimento da criança.
Se os terrores noturnos persistirem mais de 4 semanas ou se os pais afirmarem que são tão frequentes que perturbam o sono da família, deve efetuar-se uma avaliação de outros problemas familiares que podem estar associados.

Pesadelos

Embora clinicamente semelhantes aos terrores noturnos, os pesadelos ocorrem na fase Rapid Eye Movement (REM) do sono, no último terço da noite. São sonhos assustadores que podem acordar a criança deixando-a com sentimentos de profunda ansiedade e medo.

O pesadelo visto pelas crianças

Os pesadelos têm uma frequência maior nos anos pré-escolares e na adolescência, e menor entre os 7 e os 11 anos. Apesar das crianças conseguirem descrever o seu sonho logo que sabem falar, a compreensão de que um sonho não é real ainda não existe. Ao contrário das crianças de 8 anos, que já possuem um perfeito entendimento dos sonhos como processos do pensamento, as crianças mais pequenas não são capazes de distinguir entre os sonhos e a realidade. Pela mesma razão, para uma criança entre os 10 e os 18 meses que não possui ainda o vocabulário suficiente para exprimir o que a preocupa, um pesadelo pode ser uma experiência extremamente perturbadora. Se a criança for acordada no meio de um sonho terá mais probabilidades de se lembrar dele, por isso, se só ouvir queixas ou murmúrios não a acorde.

Como os pais devem reagir

Se o seu filho acordar com um grito súbito vá ter com ele, ouça-o e acalme-o, transmitindo-lhe segurança e carinho. Se a criança tiver 4 anos já podemos dizer-lhe que o sonho não é real, devendo sempre permitir-lhe descrever o conteúdo do seu pesadelo e tranquilizá-lo, mostrando segurança ao afirmar que nada de mal lhe irá acontecer. Durante o dia podemos ajudar a dessensibilizar a criança do objeto gerador de medo, desenhando-o.

Se o seu filho tem pesadelos, deixe uma luz acesa. Não o deixe ver programas violentos ou assustadores na televisão, especialmente à noite. Se não conseguir perceber o que o assusta, tente falar com ele durante o dia quando já não se encontrar perturbado. Faça um esforço para aumentar a autoestima do seu filho durante o dia. Para crianças mais velhas, uma conversa sobre o sonho e as suas possíveis causas podem ser suficientes para desenvolver capacidades de confronto. Se os pesadelos aumentam ou se o medo se alastra para o dia, deve consultar o seu pediatra pois os pesadelos persistentes ou repetitivos podem refletir pressões excessivas ou algum problema.

Sonambulismo

O sonambulismo acontece associado ao sono No Rapid Eye Movement (NREM) e, normalmente, ocorre três a quatro horas depois de se ter adormecido. Nestes episódios, a criança ou adolescente apresenta uma expressão facial empalidecida e uma indiferença em relação aos objetos e pessoas que se encontram junto de si. Duram geralmente vários minutos e, a menos que a criança seja despertada (o que a irá assustar), não se lembrará de nada no dia seguinte.

Estes episódios começam, geralmente entre os 4 e os 8 anos, sendo a sua prevalência mais elevada nas crianças entre os 9 e os 12 anos. Como se trata de uma alteração de sono benigna não é necessário um tratamento especial. A principal precaução por parte dos pais é a de evitar a ocorrência de acidentes durante estes episódios. A privação de sono ou um sono demasiado irregular pode precipitar episódios de sonambulismo e, por isso, os pais devem zelar para que o seu filho durma sempre o suficiente e tenha uma hora certa para se deitar.

Movimentos do corpo

Os movimentos rítmicos do corpo referem-se a um conjunto de perturbações que se caraterizam pela presença de movimentos estereotipados, de caráter rítmico, que implicam principalmente a cabeça. A maior parte dos episódios inicia-se no início do sono, embora também possam aparecer na fase 2 do sono No Rapid Eye Movement (NREM). Normalmente prolongam-se durante 5 a 15 minutos mas, por vezes, podem durar horas. Podem iniciar-se a partir dos 9 meses e raramente persistem depois dos 2 anos. Se os movimentos forem violentos, durarem mais de 10 a 15 minutos e ocorrerem frequentemente durante a noite, podem existir outros problemas associados.

Falar durante o sono

É um fenómeno frequente e inofensivo que pode surgir em qualquer idade. Podem ser palavras isoladas ou frases curtas que a criança não recorda na manhã seguinte. Aparece geralmente quando a criança começa a frequentar a creche. Surge no sono  Rapid Eye Movement (REM) ou no No Rapid Eye Movement (NREM), é um comportamento muito comum, está associado aos pesadelos e ao sonambulismo e não se relaciona com qualquer tipo de psicopatologia.

«Não quero dormir!»

A resistência em ir para a cama e o acordar durante a noite são muito frequentes nas idades pré-escolares – as estatísticas demonstram que 25 a 50% das crianças sentem dificuldade em ir para a cama no segundo ano de vida. Estes problemas muitas vezes manifestam-se em conjunto e são originados e mantidos por uma aquisição deficiente de hábitos de sono, habitualmente desenvolvidas pelas diferentes tentativas dos pais para que a criança vá dormir ou durma bem.

Como atuar

As abordagens mais eficazes incluem estabelecer rotinas à hora de deitar e extinguir a necessidade da presença dos pais para adormecer. Além disto, uma rotina fornece à criança uma defesa contra outras possíveis modificações perturbadoras na sua vida, como o mudar de casa, o nascimento de um irmão ou até o divórcio dos pais. Devem-se estabelecer objetivos realistas e a modificação deve ser gradual. Por exemplo: se a criança está habituada a ser adormecida ao colo, o primeiro passo será substituir este comportamento, pegando-lhe ao colo, contando uma história ou cantando, colocando-a na cama mesmo antes de adormecer. Assegure-se que a criança está realmente cansada quando vai para a cama.

Hora de ir dormir

Deve ser sempre a mesma e seguindo o ritual estabelecido. Meia hora antes da criança ir-se deitar desligue a televisão ou o computador e evite discussões de família e livros potencialmente perturbadores. Quando existem vários problemas em simultâneo – por exemplo, uma criança que resiste a ir para a cama, acorda frequentemente e pede biberões durante a noite – foque-se num problema de cada vez. Um boneco ou uma fralda de pano podem transmitir conforto e segurança à criança, dispensando, assim, a presença dos pais. Procure estimulá-lo o menos possível cada vez que acordar. Acalme-o com afirmações de segurança e tente confortá-la até adormecer. Se for necessário deite-se perto dela mas nunca com ela. Crie um ambiente propício ao sono, sem muito barulho, com uma temperatura agradável e na penumbra.
De manhã, tente focar-se sempre nos aspetos positivos do comportamento do seu filho na noite anterior.

Dormir com os pais

Sabemos que, muitas vezes, na origem do partilhar a cama estão razões como o promover os laços familiares, aumentar a sensação de segurança no filho ou aliviar os problemas de sono. No entanto, ao tomar a sua decisão pense com cuidado não apenas no presente mas também nas implicações que esse comportamento irá ter no futuro. Uma criança habituada a dormir na cama dos pais não vai aceitar pacificamente ser colocada, de repente, na sua própria cama. Por outro lado, ser capaz de ser independente durante a noite ajuda-a a desenvolver uma autoimagem positiva e transmite-lhe um verdadeiro sentimento de competência durante o dia.
Isto não significa que não pode ter o seu filho na sua cama ocasionalmente, numa manhã de fim de semana ou quando está doente ou assustado.

4 truques para o seu filho dormir sozinho

  1. A criança deve habituar-se a dormir a sesta na sua própria cama. Quando for capaz disso, é mais fácil habituar-se a fazer o mesmo à noite.
  2. Certifique-se de que a cama do seu filho é convidativa e confortável. Nunca a deve utilizar como local de castigo.
  3. Se ele acordar de noite, vá ter com ele e acalme-o sem lhe pegar ou o levar para a sua cama. Não deve voltar a deixá-lo dormir consigo a não ser quando o hábito de ficar na sua própria cama já estiver firmemente estabelecido.
  4. Não substitua um mau hábito por outro como, por exemplo, dar-lhe um biberão para adormecer. Se uma criança adormece tendo, como última recordação, beber leite pelo biberão, ficará condicionada a depender de um biberão para voltar a adormecer quando acorda a meio da noite. Para mudar este hábito ela tem de ser posta na cama acordada e sem biberão. Para isso, pode começar a diluir gradualmente o leite do biberão, diminuindo progressivamente a quantidade.
Conteúdo revisto pelo Conselho Científico da AdvanceCare.
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