A pandemia e saúde mental dos jovens: compreender mais, apoiar melhor

A pandemia e saúde mental dos jovens: compreender mais, apoiar melhor

Os confinamentos impostos para conter a pandemia da covid-19 estão a ter um forte impacto na saúde mental dos jovens. A pedopsiquiatra Rute Teiga aponta para os problemas mais frequentes e deixa pistas para melhor compreender – e resolver – a questão.

Preocupados com a vida que lhes escapa e também com o futuro que os espera, os jovens têm assistido ao cancelamento de alguns momentos cruciais - e irrepetíveis - da sua vida, tudo em prol da saúde e segurança de todos. Mas que impacto terão estes confinamentos consecutivos na saúde mental dos jovens?

Segundo Rute Teiga, pedopsiquiatra no Instituto CUF Porto, “a pandemia alterou as rotinas diárias e limitou a interação social e as atividades outdoor, o que, associado ao medo da infeção, originou sentimentos de incerteza, perda de controlo, ansiedade, tristeza e raiva”. Isto porque os confinamentos geraram aquilo que a especialista designa como “stressores”, os quais tiveram um impacto significativo na saúde mental dos adolescentes. Entre estes, enumera o isolamento social, porque ficaram sem contactos próximos com amigos e família; o encerramento das escolas, dispondo apenas do ensino online; a falta do contacto pessoal com os colegas, amigos e professores; o uso excessivo de Internet e redes sociais; a diminuição da atividade física;  a necessidade de gestão e reorganização de espaços pessoais e ainda as alterações na dinâmica de comportamentos e relações familiares.

Como consequência de tudo isto, a médica confirma que, ao longo deste último ano, têm chegado ao seu consultório muitas situações de jovens com questões do âmbito da saúde mental desencadeadas ou potenciadas pela pandemia. “As queixas mais frequentes são os sintomas de ansiedade, medo, tristeza e irritabilidade”, relata a especialista, acrescentando ainda o agravamento de comportamentos disruptivos anteriormente existentes, a alteração de comportamentos resultantes do uso excessivo de jogos online e de redes sociais e ainda as alterações dos padrões de sono.

Jovens portugueses em sofrimento

O impacto negativo da pandemia entre os jovens portugueses foi precisamente a conclusão a que chegaram os autores de um estudo realizado por uma equipa da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação (FPCE) da Universidade de Coimbra (UC). Os resultados preliminares mostram que 14% dos adolescentes, com idades compreendidas entre os 13 e os 16 anos de idade, apresentam “sintomatologia depressiva elevada (acima do percentil 90) durante a pandemia da covid-19, uma percentagem superior à encontrada num estudo conduzido pela mesma equipa de investigadores durante a crise financeira portuguesa de 2009-2014”, lê-se numa nota partilhada pela UC.

Os resultados não surpreendem Rute Teiga, tendo em conta que “desde o início da pandemia tivemos dois confinamentos e consequente isolamento social, com diminuição ou ausência de suporte social e aumento da perceção de sentimentos de solidão e exacerbação dos seus efeitos; diminuição ou ausência de rotinas diárias saudáveis - por exemplo, estar de pijama todo o dia ou não tomar o pequeno-almoço antes das aulas; sentimentos de incerteza perante o futuro; diminuição de partilha de emoções; redução ou ausência de atividades fora de casa e risco de morte de entes queridos, com existência de morte familiar em alguns casos”, explica. “Sem dúvida de que estes são fatores condicionantes no aparecimento de sintomas de ansiedade e depressivos”, justifica a pedopsiquiatra.

Ainda naquele estudo, verificou-se que as raparigas apresentam níveis de medo, tristeza e raiva mais elevados do que os rapazes. Rute Teiga analisa o resultado com o facto de os sintomas ansiosos, assim como os sintomas depressivos, serem mais frequentes no sexo feminino: “As raparigas têm maior preocupação escolar, e numa situação de quebra de rotina de estudo, as aulas online criam incertezas no futuro que são percecionadas como estando em risco, ameaçando objetivos de vida, de ter sucesso”, reforça.

Conclusões idênticas foram obtidas num estudo recente realizado pela UNICEF entre adolescentes e jovens da América Latina e Caraíbas, que mostraram igualmente o impacto negativo da pandemia na saúde mental de quem se encontra nesta faixa etária. Com efeito, nos sete dias anteriores ao inquérito, 27% sentiram sinais de ansiedade e 15% de depressão. Para cerca de 30% dos participantes (um total de 8.444 entre os 13 e os 29 anos de idade), a principal razão para se sentirem assim prendia-se com a situação económica. Também aqui as raparigas se mostram mais afetadas, com 43% a revelarem-se mais pessimistas em relação ao futuro, em comparação com 31% das respostas masculinas.

Como protegê-los?


Perante uma situação que não se controla, torna-se importante possuir ou desenvolver mecanismos que ajudem a lidar com a realidade. Questionada sobre as ferramentas mais relevantes para os jovens neste momento, Rute Teiga sublinha que “é importante que mantenham o contacto - dentro das regras de proteção - com os amigos, pois nesta fase de desenvolvimento é muito importante o apoio social dos pares”. Por outro lado, “é importante pedir o apoio dos pais e amigos e, se necessário, de profissionais de saúde mental; praticar exercício físico regular ou alguma atividade que lhes dê prazer, como pintar, desenhar, ouvir música, tirar fotografias”. E tudo isto sem esquecer a necessária “adoção de padrões de sono saudáveis”.

Por outro lado, a pedopsiquiatra sublinha que “apesar de os jovens sentirem que estão a ser, em parte, privados da sua adolescência e vivências, também sabem que a situação é geral e que não a podem controlar nem mudar, portanto, a gestão emocional pode ser mais fácil e menos danosa”. Para tal, muito podem contribuir os pais, educadores e professores. Nas palavras da médica, “os pais devem dar suporte aos adolescentes, ajudá-los a compreender, aceitar e até a encontrar significados positivos para as restrições sentidas, por exemplo, o facto de haver mais tempo em família e a possibilidade de fazerem atividades juntos, como ver filmes ou séries e a possibilidade de o adolescente poder reorganizar o seu estudo”. Além disso, cabe também aos adultos responsáveis “estarem atentos às alterações comportamentais e emocionais dos adolescentes”, para que haja uma intervenção atempada, em caso de necessidade.

A terminar, a especialista deixa uma mensagem otimista, no que diz respeito ao estabelecimento de relações: “Os adolescentes estão sempre a procurar formas de se conectarem e socializarem, pelo que se puderem estar juntos, mesmo com restrições, o relacionamento não é uma dificuldade.”

Já em relação ao uso de dispositivos eletrónicos, que passou a imperar, desde logo devido às aulas online, deixa um aviso: “O uso abusivo de ecrãs tornou-se um problema maior durante os confinamentos atendendo ao facto de ser uma forma privilegiada de comunicação e socialização com familiares e amigos. Torna-se importante monitorizar o tempo de ecrã para minimizar riscos de dependência e alterações de comportamento e emocionais.”

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